Blogroll

12 março 2014

DEUS E SARAMAGO | Saiba mais sobre a visão do escritor português acerca da personagem “Deus”

Percebe-se no homem a necessidade de questionar a sua existência, e a literatura traz para a discussão, interrogações que provocam um desconforto por muitas vezes não atenderem a expectativa da esfera religiosa. E isso acontece claramente no desenvolvimento da literatura contemporânea.
Grandes escritores se dedicam a retratar em seus personagens as mazelas vividas pela humanidade em busca de respostas para as decisões divinas. No romance “Caim”, José Saramago interroga as atitudes de Deus, como, por exemplo, a recusa do Altíssimo ao sacrifício de Caim, que desencadeia o primeiro fratricídio da história, colocando em “cheque”, assim, a inquestionável magnanimidade do Criador.
Essa não é a primeira obra em que o autor demonstra seu interesse a respeito da personagem Deus. Ao decorrer da sua vida, Saramago parece ser obcecado pela figura divina e sua representação na sociedade. E em algumas de suas célebres obras são evidenciados perfis de Deus que fogem da visão universal, que retrata um Deus de amor e perdão, que construímos ao longo de nossas vidas. Esses perfis aparecem em diversas obras, tais como “O Evangelho segundo Jesus Cristo” , “Terra do Pecado” e “Memorial do Convento”.
Mas o que nos interessa aqui, em específico, é a obra “Caim” de Saramago, que nos instiga e confunde fazendo brotar em nossas mentes questionamentos que rodeiam o existencialismo humano, e o quão é vulnerável a relação entre razão e fé e como o homem atual necessita da existência de Deus para explicar a própria existência.
O romance contesta o mito bíblico judaico-cristão, o que até séculos atrás não seria aceitável, mas com as inovações provindas do iluminismo, as lacunas e contradições dos evangelhos canônicos ficam expostas às inquisições.
Conhecendo muito bem essas lacunas, Saramago se apropriará do discurso bíblico e criará uma nova compreensão do texto mítico, trazendo para a literatura sentimentos como: ira, desejo e sofrimento, mesclando o universo mítico com o literário.
Ao nos depararmos com esses dois mundos, em que Saramago transita de forma genial, percebemos a necessidade de superarmos a deficiência nos conhecimentos que dizem respeito a religião. Ainda mais, quando esses conhecimentos integram o espaço de uma obra, afinal sabe-se que vivemos em uma sociedade profundamente cristã, onde foram criadas milhares de obras relevantes para a sociedade, e assim, não podemos desprezar o meio onde a obra foi criada, pois, isso poderia comprometer sua significação.

Na obra “Caim” de Saramago, percebe-se claramente a assimilação do texto bíblico como fica claro na passagem abaixo:
Fazendo das tripas coração, consciente do feito que era pôr as culpas em outrem, adão disse, A mulher que tu me deste para viver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi. Revolveu-se o senhor contra a mulher e perguntou, que fizeste tu, desgraçada, e ela respondeu, A serpente enganou-me e eu comi. (SARAMAGO, pág. 17)
Mesmo com um precário conhecimento bíblico, essa passagem da obra dará ao leitor uma exata percepção do modo que o autor utiliza o discurso mítico, nos oferecendo uma ressignificação do texto bíblico, carregada de sarcasmo, quando deixa claro que Adão tinha plena consciência dos seus atos ao comer o fruto proibido.
Então, para uma melhor interpretação da obra de José Saramago é fundamental um conhecimento satisfatório sobre o universo religioso como base arquetípica para a análise da obra abordada, pois o autor não somente traz passagens da bíblia, como também o contexto de religiosidade na contemporaneidade.  Como se observa na passagem abaixo:
Assim faremos, pois, começando por esclarecer alguma maliciosa dúvida por aí levantada sobre se adão ainda seria competente para fazer um filho aos cento e trinta anos de idade. À primeira vista, não, se nos ativermos apenas aos índices de fertilidade dos tempos modernos, mas esses cento e trinta anos, naquela infância do mundo, pouco mais teriam representado que uma simples e vigorosa adolescência que até o mais precoce dos casanovas desejaria para si.  (SARAMAGO, pág. 13)
Nessa perspectiva, o autor José Saramago, traz para a narrativa bíblica elementos presentes na sociedade atual, que são possíveis de serem interpretados. Assim, compreender os símbolos e referências ajudará a compreender José Saramago, um dos maiores autores da contemporaneidade.
Matéria publicada no <http://literatortura.com/2013/04/o-deus-de-jose-saramago-a-ressignificacao-do-texto-biblico-dotada-de-sarcasmo-e-consciencia/>

Por Yane Manuela 

12 janeiro 2014

Traços ultrarromânticos na música “Te esperando” de Luan Santana

A segunda geração da poesia romântica abandona os ideais nacionalistas da primeira geração e “mergulha” no que chamamos de oclusão do sujeito em si próprio marcado pelo sofrimento amoroso, pessimismo e melancolia. 
Esse movimento foi amplamente difundido no século XVIII e influenciou diversos autores como: Álvares de Azedo, Fagundes Varela, Casemiro de Abreu e Junqueira Freire. Em Algumas músicas, que fazem sucesso na atualidade, é possível encontrarmos características dessa fase do movimento literário.                                                                                                                            
Na música “Te esperando” do cantor Luan Santana esses traços ficam evidentes já no título da canção, quando o eu lírico revela que espera a sua amada, é interessante chamar a atenção para a forma verbal ‘ESPERANDO’ que nos leva a entender que a espera do eu lírico e uma espera contínua.                         Nas primeiras estrofes da música o eu lírico revela as adversidades enfrentadas pelo eu lírico para concretizar sua paixão, o eu lírico deixa claro, nas estrofes, que não importa que a sua amada se relacione com outro, ou que passe muitos anos, apesar de tudo, ele sempre continuaria a amá-la, revelando uma das características do ultrarromantismo que é o amor incondicional que não se concretiza. Nas ultimas estrofes é relevante ressaltar que o eu lírico não a deixa de amar nem quando sua beleza física dissipa-se e faz uma promessa de amor além da vida.

Te esperando – Luan Santana

Mesmo que você não caia na minha cantada
Mesmo que você conheça outro cara
Na fila de um banco
Um tal de Fernando
Um lance, assim
Sem graça

Mesmo que vocês fiquem sem se gostar
Mesmo que vocês casem sem se amar
E depois de seis meses
Um olhe pro outro
E aí, pois é
Sei lá

Mesmo que você suporte este casamento
Por causa dos filhos, por muito tempo
Dez, vinte, trinta anos
Até se assustar com os seus cabelos brancos

Um dia vai sentar numa cadeira de balanço
Vai lembrar do tempo em que tinha vinte anos
Vai lembrar de mim e se perguntar
Por onde esse cara deve estar?


Te esperando
Nem que já esteja velhinha gagá
Com noventa, viúva, sozinha
Não vou me importar
Vou ligar, te chamar pra sair
Namorar no sofá
Nem que seja além dessa vida
Eu vou estar
Te esperando

Yane Manuela Lima Ma

21 fevereiro 2013

Cartola: o grande poeta lírico do Samba



Implacável consigo próprio, o sambista da Mangueira escondeu canções de qualidade que o MIS do Rio de Janeiro está organizando e vai mostrar a pesquisadores musicais

O Mundo é Um Moinho

Cartola

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

Álvares de Azevedo: Poeta da segunda geração romântica.

Manuel Antônio Álvares de Azevedo foi um romancista, dramaturgo e poeta brasileiro, nascido em São Paulo. É muito conhecido pela sua obra "Noite na Taverna".

Fim


No fim
Há uma dor
Pungente
Latente
Que se finda
Num estante
De puro abandono e solidão
As horas se despem
Diante de mim
Uma esperança pueril
Vaga trôpega e sombria
Nada me resta
Somente a inerte
Lembrança de um passado recente.

Yane Manuela l.

POEMA


 

Tu és poema que floresce em minhas mãos;
No ritmo das palavras
Tu és nota de admirável preciosidade;
Tu és melodia insinuante
Que me cobre de gozo ardente;
Te construo a cada verso
Tu és rima rara
Que não se encontra nas esquinas
cinzentas da vida;
Tu és tinta
que excede o papel ;
Tu és um significado particular
Cunhado no meu peito
Nas linhas da alma;
Tu és obra prima
Grafada na derme
Que impregna
e se une ao sangue
Tornado-se parte de um todo
Parte de mim.

Yane Manuela Lima Marques


 

Insônia


 

À noite
Insone
Ávido
Não me deixas dormir
Me queres
Rendida
Arfante
Arquejante
Em delírio febril;
Nos teus braços
ouço frêmitos carnais ;
Ao cantar sua voz
se pinta de carmim
Fita-me nos olhos
Quando a chama
Tomar-lhe as faces
que coram
de rubra cor;
Me pinte de cores
Amores
Pudores;
E no momento
em que a aurora
aparecer dengosa;
As olheiras
Não me deixarão mentir
da noite passada
que tu não me deixaste dormir

Yane Manuela L.

 

 

                            

 

 

 



Sob as estrelas
Há grãos de areia
Que correm com o vento;
Poeira que cobre
os pés do destino;

A velha Cloto tece
O fio da vida
De cada mortal,
E cuida para que esse fio
se desenrole através do tempo;
E esse vai se esfacelando
Na jornada

É uma linha tênue
Que ao menor dos caprichos
Átropos rompe;
Ela não volta atrás

Estamos perdidos
Na amplitude do não ser;
Do nada ser,
O que nos aguarda,
Não sabemos;
Se aos Campos Elísios
Seremos guiados,
Ou a profunda escuridão
Do Palácio de Hades

Permanecemos aqui;
Somente pó
Sem conhecer a razão
Nessa imensidão incógnita
Do existir,
E do deixar de existir

Yane Manuela L decente .